Domingo, 5 de Julho de 2009

Superstições

Por João Paulo da Silva

A mãe do Rodrigo era supersticiosa, cheia dessas crendices populares que habitam o imaginário de muita gente. Aí já viu, né? Qualquer coisinha era motivo para um “Deus nos acuda”, literalmente. O pobre do garoto fora criado em meio a um mundo que parecia ser governado por forças ocultas e implacáveis. Era como se determinadas ações acarretassem, inexplicavelmente, consequências irremediáveis. “Pisar em rabo de gato atrai malefícios”, “deixar tesoura aberta por muito tempo dá azar”, “coruja que crocita em cima da casa, à noite, é sinal de morte na família”. Isso só para ficar em alguns exemplos. Mas a mãe do Rodrigo não mencionava apenas superstições ruins. Por vezes, quando o filho tinha soluços, ela aconselhava:

- Põe um palito de fósforo atrás da orelha que isso passa, menino!

Na bolsa, ela sempre carregava dentes de alho, figas e trevos de quatro folhas. Se, por acaso, quebrasse um copo numa festa – minha nossa! – era certeza de que vinha felicidade pela frente. Batata mesmo. Enfim, a dona vivia de crendices.

O Rodrigo não aguentava mais as ladainhas supersticiosas da mãe. Quando ele era criança, não podia fazer nada que a velha vinha reclamar:

- Menino, pare de apontar para as estrelas! Vai ficar com o dedo cheio de verrugas! Olha aí ô, Rodrigo! Desemborca esses chinelos já! Quer trazer desgraça, infeliz?!

Outro dia, porém, já homem feito, o Rodrigo resolveu rebater as superstições da mãe e quase saiu do sério. Estava ele sentado no sofá, quando ela aparece coçando a orelha esquerda.

- Ai filho, acho que tem alguém falando mal de mim. Minha orelha esquerda não para de coçar.

- Mãe! Quer parar com essa loucura?! Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Onde já se viu isso?! Essas crendices não existem. Não há nenhuma relação científica nisso tudo. Essa orelha deve tá é muito suja pra coçar desse jeito.

- Suja?

- É. Vem cá pra eu dar uma olhada nisso. Olha aí! Não falei?! Tá com o ouvido cheio de cera.

- Sério? Cheio de cera?

- É. Tá uma porqueira só.

- Ai meu Deus, que bom! Quem tem muita cera no ouvido é sinal de que vai ficar rico.

- MÃE!!!!

Domingo, 28 de Junho de 2009

Adedonha

Por João Paulo da Silva

A infância é um dos territórios da vida que mais gosto de revisitar. É para lá que vou quando momentos ruins me assaltam. As lembranças da época me proporcionam intervalos na loucura desse obscuro mundo de “cimento e lágrimas”. Os amigos, as pequenas paixões, os medos imensuráveis, as brincadeiras da escola. Tudo isso ressurge para que eu possa reviver e reinventar cada um daqueles longínquos instantes.
Por vezes, me pego relembrando brincadeiras da infância. Em especial, uma: a adedonha. Aquela em que os participantes escolhiam algumas categorias (nome, cantor, fruta etc), sorteavam uma letra e se danavam a preencher a considerável lista no menor tempo possível. Ao final, quem somasse mais pontos era o vencedor. É claro que de geração para geração há umas tantas variações para a brincadeira. No meu tempo, por exemplo, gostávamos mesmo era de escolher punições para os perdedores. E isso me lembra uma história. Na época, nem éramos tão crianças assim. Já tínhamos 12 anos ou mais até.
Os pais da Luana não estavam em casa e ela resolveu chamar a turma para brincar. Na verdade, a turma era composta por mim, pelo Tadeu, pelo Lucas e pela própria Luana. Era um seleto grupo de amigos, quase uma sociedade secreta.
- E aí? Do que é que a gente vai brincar? – eu quis saber.
- De adedonha, claro. – adiantou-se a Luana.
- Ah, não. De novo não, Luana. Toda vez a gente brinca disso. Vamos de esconde-esconde? – disse o Lucas.
- Pra você ficar preso outra vez no guarda-roupa?! De jeito nenhum. Vai ser adedonha e pronto. – sentenciou a dona da casa.
- Por mim tudo bem. – concordou o Tadeu.
- Por mim também. – disse eu.
Esmagado pela maioria, o Lucas acabou cedendo. Nem adiantava reclamar muito. Democracia era democracia.
- Mas desta vez vamos fazer diferente. Ao invés de vários temas, a gente escolhe um só, sorteia uma letra e vai dando os exemplos até se esgotarem todos os nomes. Quem não souber dizer a palavra leva uma punição. – propôs a Luana.
Todo mundo topou. Quando já íamos começar a brincadeira, o Lucas atentou para um importante detalhe.
- Ei, qual vai ser punição? Ninguém pensou em nada.
Era verdade. Tínhamos esquecido o essencial. Por um breve momento, ficamos todos em silêncio, pensativos. O Lucas até sugeriu apostar dinheiro, mas ninguém deu ouvidos a tamanho disparate. Como nesta vida o vazio não existe por muito tempo, a Luana acabou encontrando a solução.
- Já sei! – gritou ela.
- Ai meu Deus. Lá vem. – resmungou o Lucas.
- Vamos fazer assim: em cada rodada, aquele que perder vai tirando uma peça de roupa.
Ficou todo mundo se olhando esquisito, meio sem jeito, com cara de banana. Exceto a dona da proposta, claro. A Luana pegava pesado. A garota não era apenas os pés do cão; era o corpo inteiro. Naquele instante, eu senti que estávamos prestes a cruzar a linha que separa a infância da adolescência.
- Como é?! Vocês vão ou não vão, seus molengas?! – atacou a Luana.
A gente nem teve tempo de refletir direito sobre o caso.
- Tá legal. Eu topo. – falei.
- Certo. Também vou. – aceitou o Lucas.
Só quem ficou hesitante foi o Tadeu, soltando um e outro muxoxo.
- Sabe o que é, pessoal... é que... eu... não sei se...
- Ah! Cala essa boca e vem logo brincar!
Era impressionante o talento de estadista da Luana para resolver os impasses. Todo intimidado, o Tadeu acabou entrando na brincadeira, mas ficou um tempão com cara de quem esconde alguma coisa.
Enfim, começou a adedonha. E já no início perdi minha camisa. Duas rodadas depois, lá se foram meus tênis e meias. Sobrou apenas a calça. Me atrapalhei na fruta com “f” e quase fico sem nada. Entretanto, consegui uma rápida estabilização nas rodadas seguintes.
O certo é que, à medida que o jogo avançava, todo mundo ia tirando uma peça de roupa. Não demorou muito para que o Lucas ficasse de cueca e a Luana de calcinha e sutiã. De calças, restávamos apenas eu e o Tadeu. E do jeito que caminhavam as coisas, logo não haveria mais nada para tirar. Era uma conjuntura que, a depender do ponto de vista, poderia ser boa ou não.
Entretanto, um acontecimento inesperado fez tudo mudar de figura. Estávamos na rodada do animal com a letra “h”. Uma categoria dificílima.
- Hiena! – falou a Luana.
- Hipopótamo! – gritou o Lucas.
Parecia não haver mais nomes, e eu não podia perder aquela rodada. Foi quando, diante do desespero, me veio um lampejo na cabeça.
- Harpia! – gritei.
- Uhuuuuuu!!! Se ferrou, Tadeu. Não tem mais animal com a letra “h”. Vai ter que ficar só de cueca. – disse o Lucas.
Foi aquele fuzuê. Com o terror no rosto, o Tadeu vacilava em tirar as calças. Mordendo os lábios de medo, ele ficou um tempo enrolando, naquele “tira-não-tira”. Até que a Luana entrou em ação.
- Tira logo isso, Tadeu! Que besteira ficar de cueca!
Mas o que se seguiu depois não foi nenhuma besteira. Presenciamos uma cena inimaginável. O que o Tadeu tinha por baixo das calças podia ser qualquer coisa, menos uma cueca.
- Meu Deus! O que é isso?! Que coisa horrorosa é essa, Tadeu?! – se desesperou a Luana.
- Olha só o tamanho disso! Será que é normal? – disse o Lucas.
- Caramba! Isso até parece uma... – quando eu ia falar, a Luana me interrompeu.
- Chega! Acabou a brincadeira! Não quero mais brincar!
- Por que, Luana? – perguntou o Tadeu, cheio de lágrimas nos olhos.
- E você ainda pergunta?! A gente vai ter pesadelos com isso, Tadeu! Ninguém vai conseguir brincar olhando pra essa coisa aí! – argumentou a dona da casa.
- Eu também não brinco mais. – decidiu o Lucas.
- E eu também tô fora. Deus me livre. – falei.
Acabamos com a adedonha antes do fim e nunca mais falamos no assunto.
Hoje, muito tempo depois, eu ainda fico pensando no incidente. Pobre do Tadeu. A coisa nem era tão grande assim.

Domingo, 21 de Junho de 2009

Pequenos flagras da vida de todos nós XII

Por João Paulo da Silva

Uma verdade

Quando reencontramos alguém que não víamos há muito tempo, costumamos dizer: “Rapaz, você andou sumido”, “se escafedeu?”, “pensei que tinha virado pó”. Entretanto, a bagunça é tanta na república das bananas que as pessoas resolveram inovar. Semana passada, numa mesa de bar em Natal, flagrei uma expressão que pode virar moda.
Ao lado da minha mesa, havia um homem tomando sua cervejinha. De repente, ele se levantou todo efusivo para falar com um sujeito que, provavelmente, não via há tempos. Indo ao seu encontro, ele disparou:
- Rapaz, você sumiu hein?! A gente agora tá que nem político e cadeia.
- Por quê?
- Onde um está o outro não aparece.
Tá aí. Uma das poucas verdades que ainda se pode ouvir.

Peludo

Uma sala de aula em alguma parte deste país. O professor, já sem paciência, não consegue controlar a turma. O barulho é insuportável e ele está prestes a explodir num acesso de fúria. Tenta manter a calma. Sabe que é um educador e que não pode perder as estribeiras. Se disser qualquer coisa impensada, poderá até criar um problema maior. Porém, ele é um ser humano. Pior: é um professor. E só por isso já merece nosso perdão.
Depois de ameaçar reprovar todo mundo, ele consegue um filete de silêncio. Está tenso. É praticamente um barril de pólvora, precisando apenas de uma centelha. E ela vem em forma de aluno. Uma menina, olhando para os braços peludos do professor, inocentemente diz:
- Professor, como o senhor é peludo!
Ele não se segura, deixando escapar a grosseria.
- Ah é, querida?! Você me acha peludo?!
- Acho.
- Pois você não me viu pelado!

Pelo contrário

Recebo outra história do nosso admirável professor intolerante.
O ilustre mestre, criador da “Pedagogia da Jeguice”, estava corrigindo algumas redações em seu birô quando se deparou com uma extravagante barbaridade.
- Alfredo, faça o favor de se aproximar. – pediu.
- Pois não, professor.
- Leia a sua redação em voz alta, por favor.
- Mas... é que... eu...
- Não discuta, sua besta! Faça o que eu estou mandando.
E o Alfredo se danou a ler o próprio texto. Quando estava quase no fim de sua redação, sem suspeitar de nada, ele leu a frase que havia despertado a fúria do mestre. Era a seguinte:
- A violência não está diminuindo em nosso país. Muito pelo contrário, ela só aumenta.
Aí o professor interrompeu:
- Pare, criatura! Você por acaso sabe o que quer dizer “muito pelo contrário”?! Sabe, sua anta?! “Muito pelo contrário” é cabelo na bunda, rapaz! Que jeguice, meu Deus. Que jeguice.

Domingo, 14 de Junho de 2009

Em nome do amor

Por João Paulo da Silva

Aqueles que são românticos incorrigíveis, assim como eu, não os são apenas no Dia dos Namorados, e sim durante o ano inteiro. Confesso que não sou muito sensível a datas criadas unicamente para ganhar dinheiro, mas devo admitir que este último dia 12 de junho me deixou meio balançado. Na verdade, foi uma cena nas ruas de Natal que me fez lembrar a emoção que nos traz o primeiro amor.
Era final de tarde. Num ponto de ônibus, vi um rapaz com cara de abestalhado segurando um ramalhete de rosas vermelhas. Aquilo, imediatamente, me levou dez anos atrás, quando arranjei minha primeira namorada. Aos 14 anos, eu não só estava com cara de abestalhado como também fiz papel de abestalhado. Meu primeiro amor foi, ao mesmo tempo, minha primeira desilusão.
Não revelarei o nome da moça por motivos éticos, até porque isso aqui não é espaço pra fofoca (risos cínicos). Namoramos apenas durante um mês e meio. Mas foi o suficiente para que eu descobrisse, cedo demais, que malandro é malandro e mané é mané.
Ela era um docinho, uma jujubinha. Eu estava completamente apaixonado. Moleque inexperiente, achava que havia encontrado o amor da minha vida. Até planos de casamento e filhos eu fiz. Bom, já deu pra notar quem é o mané da história. O certo é que durante um mês eu jurei ser o homem (menino, na verdade) mais feliz do mundo. Mas o povo é triste demais. Não pode ver ninguém alegre que começa a inventar história. Não demorou muito e umas conversinhas foram chegando aos meus ouvidos.
- João, abre teu olho. Fulaninha anda fazendo besteira.
- Escuta, João. Você ainda tá namorando aquela menina?
- Tô. Por quê?
- Nada não. Só curiosidade.
As insinuações foram ficando cada vez mais ousadas. Até que uma tia, com o coração na mão, me revelou tudo.
- É verdade, querido. Ela tem outros.
- Outro?
- Não, meu filho. Outros mesmo. Assim, no plural.
Fiquei em pedaços (clichê de história de amor!). No dia seguinte, pus um ponto final naquela brincadeira toda. Ora, ora. O que ela pensava que eu era?! Algum otário?!
Mas a desgraça maior estava por vir. É como me disseram certa vez: não há nada tão ruim que não possa ficar ainda pior. No fim de semana anterior ao término do namoro, a moça tinha viajado. Ninguém sabia informar para onde, nem mesmo a família sabia (disso eu desconfio, família é fogo!). Porém, eu não demoraria muito para descobrir.
No domingo seguinte, já com tudo acabado, por volta das onze da noite, eu estava mudando os canais da TV quando algo chamou minha atenção. Na época, o SBT tinha um programa, apresentado pelo Silvio Santos, chamado “Em nome do amor”, dedicado a pessoas que queriam namorar. E adivinhem?! Quem estava no programa?! Isso mesmo. Ela. A fulana.
Na hora, eu não sabia se ria ou se chorava. Mas por um lado fiquei tranqüilo. Não havia mais nada entre nós e eu tinha certeza de que o programa era ao vivo. No fim, quando o Silvio perguntou se era namoro ou amizade, ela acabou respondendo amizade. Achei bem feito. Para ela e para o banana que a acompanhava.
Eu só fui perceber o tamanho de minha tragédia quando me contaram que, na verdade, o programa era gravado. Sabe aquele fim de semana que ninguém soube dizer onde a moça estava? Pois é. Eu fui o último a saber.

Domingo, 31 de Maio de 2009

Me contaram

Por João Paulo da Silva

“Não sei se é verdade, mas me contaram uma...”. Normalmente, é assim que começam os relatos duvidosos. O fofoqueiro – espécie de jornalista sem critérios de apuração nem código de ética – é o responsável por essas narrativas audaciosas. Para ele, uma boa história não precisa ser necessariamente verdadeira. Precisa ser apenas atraente e, de preferência, escandalosa.
Eu tenho pena do jornalista, esse fofoqueiro com código de ética e critérios de apuração. Quantos jornalistas já deixaram de contar boas histórias só porque elas não eram totalmente verdadeiras? O fofoqueiro é que é feliz. Pode aumentar uma coisinha aqui, inventar outra acolá. Melhor: se quiser, pode até inventar tudo e ficar com a consciência tranquila. Ninguém vai punir o fofoqueiro. Mesmo porque, depois de feita a fofoca, é muito difícil provar que fulano de tal é responsável pela história. O fofoqueiro sempre nega.
Não sei se é verdade, mas outro dia também me contaram uma. No início dos anos 90, durante uma viagem aos EUA, um embaraçoso acontecimento envolveu o então presidente da República, Fernando Collor de Mello, e a primeira-dama, dona Rosane. Dizem as más línguas que ela nunca foi uma pessoa, digamos, “esperta” demais. É como falam por aí: o cérebro é uma coisa maravilhosa. Todos deveriam ter um. Ao que tudo indica, dona Rosane Collor não tinha. Ou, na melhor das hipóteses, se esqueceu de levar no dia da viagem.
Assim que o presidente e a primeira-dama desembarcaram no aeroporto, foram recebidos com todas as honras a que tinham direito. Inclusive, na ocasião, havia uma enorme faixa na entrada do saguão com os seguintes dizeres: Welcome, Collor! Dona Rosane, um poço de sagacidade, olhou com atenção a frase e rapidamente se deu conta do que estava escrito. Com cara de mulher que exige explicações do marido, a primeira-dama lascou pra cima do presidente:
- Mas que história é essa, Fernando?! Quem é esse tal de Wel?!
Bom, foi o que me contaram.

Domingo, 24 de Maio de 2009

Indo ou voltando?

Por João Paulo da Silva

Eis que me chega outra história do nosso intolerante professor de português. Criador da eficaz “Pedagogia da Jeguice”, cuja técnica consiste em humilhar os que cometem erros gramaticais, o inflexível mestre se deparou, na semana passada, com mais um atentado contra a Língua Portuguesa.
Mesmo ainda um pouco abalado com a última jeguice, que lhe rendeu até um infarto do miocárdio, o persistente professor resolveu voltar às salas de aula. Na ocasião, ele falava sobre um assunto que para muitos é um dos maiores terrores da nossa língua: a crase.
- Este é um tema que não guarda mistérios. – dizia o professor – As pessoas gostam de complicar as coisas simples. A crase, por exemplo, não tem segredo algum. Vejamos. Para que ocorra o acento grave da crase, é necessária a fusão de duas vogais idênticas.
- Não entendi, fessor. – interrompeu um aluno.
- Paciência, pequeno jerico. Ainda não terminei de explicar. Continuemos. Haverá crase quando houver o encontro da preposição “a” com o artigo feminino “a”. Exemplo: O táxi chegou à esquina. Neste caso, a palavra “esquina” admite o artigo feminino “a” e o verbo “chegou” exige a preposição “a”. Sendo assim, a crase é perfeitamente possível.
Ao longo da aula, o professor foi explicando ainda mais sobre esse encontro da preposição com o artigo e coisa e tal. Até que, num determinado momento, resolveu ensinar um macete para aqueles alunos que sempre acharam que a crase era um recurso estilístico.
- Como sei que estou entre muitos jumentos, darei uma dica que ajudará na identificação da crase. Acompanhem, jovens quadrúpedes. Exemplo: na frase “fui a Portugal”, devemos ou não usar a crase?
Silêncio. O professor prosseguiu.
- A resposta é não, meus bestiais alunos. Vejamos a razão. Se eu disser que fui a Portugal e não souber se devo aplicar a crase ou não, basta voltar do lugar para saber a resposta. Se aparecer a expressão “voltar da”, então ocorrerá crase.
Aí veio a pancada.
- Ah, fessor. Assim fica muito fácil. Já entendi tudo. – disse um aluno – Quer dizer que só tem crase se eu for para um lugar e voltar, né? Se eu for pra ficar no lugar e não voltar, então não tem crase, certo? Muito fácil assim. Desse jeito, qualquer um acerta.
O professor começou a tremelicar violentamente, tropeçou nas próprias pernas e caiu. Com a boca torta, babando e revirando os olhos, ele parecia querer dizer alguma coisa. Chegando mais perto, os alunos puderam identificar duas palavras. Com a voz esganiçada, o professor ainda encontrou forças para dizer:
- Que jeguice...
Como a pressão cerebral fora muito grande, o mestre acabou sendo internado às pressas. Derrame. Parece que dessa vez ele não escapa.
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Nota do autor:
Este mês o blog As Crônicas do João completou dois anos de existência. Para todos aqueles que passam por aqui, meus sinceros agradecimentos.

Domingo, 17 de Maio de 2009

Pequenos flagras da vida de todos nós XI

Por João Paulo da Silva

Mandrake

A gente sempre acha que já viu de tudo nessa vida. E é aí que mora o perigo. Na maioria das vezes, subestimamos a cota de bizarrices que cada um de nós possui.
Certo professor de Língua Portuguesa, na tentativa de ganhar a simpatia de seus alunos, resolveu entrar numa popular brincadeira proposta pela turma da 6ª série. Se você foi uma criança normal, com certeza já brincou de “Mandrake”. Não lembra? É simples. Quem estiver brincando, precisa ficar o tempo todo com os dedos de uma das mãos cruzados. Do contrário, se alguém disser “Mandrake”, o participante que foi pego com os dedos descruzados não poderá se mexer até receber permissão.
Na ânsia de conseguir a confiança dos alunos, o professor entrou na brincadeira. Só teve um problema: ele levou tudo a sério demais. Dava aula com os dedos cruzados, escrevia no quadro com os dedos cruzados, corrigia as atividades da turma com os dedos cruzados. Tudo isso para não ser pego no “Mandrake”. Passou uma semana, e a brincadeira persistia. Nem ele nem os alunos se descuidavam.
Um dia, enquanto o professor escrevia no quadro, um menino chegou perto e disse:
- Professor, posso ir ao banheiro?
- Claro. Pode ir.
Mal o garoto cruzou a porta e desceu as escadas, o professor se virou para a turma.
- Agora eu pego ele.
E saiu na ponta dos pés atrás do aluno. Esperou um pouco na porta do banheiro, depois entrou. O menino estava lavando as mãos quando foi surpreendido.
- MANDRAKE! – gritou o professor.
Como num passe de mágica, o pobre do moleque ficou paralisado.
- Agora te peguei, malandro.
- Pô, professor. Assim não vale, não.
- Que não vale o quê, mané?! Você vai ficar aí paradinho.
- Mas assim eu vou perder aula.
- E o que é que eu tenho a ver com isso?
- Ué, você é o professor.
- Isso não quer dizer nada. Você deveria ter pensando nisso antes. Agora aguente.
E lá se foi o professor de volta para a sala, deixando o aluno paralisado dentro do banheiro. Só depois do fim da aula foi que ele recebeu permissão para se mexer. O moleque já estava aos prantos quando o professor entrou.
- Mas o que é isso?! Chorando?! Você é um homem ou um pacote de amendoim?!
- Sou um pacote de amendoim.
- Frouxo! Sabe nem brincar. – sentenciou o professor.
“Mandrake” não era pra qualquer um.

Pequeno mau-caráter

Eu tinha uns 11 anos, e ainda não era o bom sujeito que sou hoje (é o que dizem). Na verdade, eu era mesmo um pequeno mau-caráter. Mas fui só até os treze. Depois mudei. Juro. Há um causo que comprova minha inclinação infantil para a safadeza. Como disse, eu tinha uns 11 anos quando sucedeu o fato.
Meu irmão e eu costumávamos voltar pra casa sentados nas cadeiras da frente do ônibus, reservadas apenas para os idosos. Quando os velhinhos subiam pela porta dianteira, nós dois ficávamos com raiva porque eles pediam para sentar nos lugares. Aí a gente fazia a viagem toda em pé. Um dia bolei um plano para nunca mais ter que dar o lugar no ônibus para os vovôs. Funcionava assim: quando parávamos num ponto de ônibus e víamos que velhinhos estavam subindo, imediatamente meu irmão e eu fingíamos dormir nas cadeiras. Dessa forma, nenhum idoso tinha coragem de acordar aquelas pobres crianças indefesas. Durante muito tempo funcionou, mas nesta vida nada é eterno.
Um dia voltávamos para casa, como de costume, seguindo o mesmo esquema. O ônibus parou e subiram dois velhinhos. Distraído, só os vi quando já estavam dentro. Aí, no desespero, soprei um pouco alto para meu irmão:
- Olha eles! Dorme rápido! Dorme! Vai, dorme logo!
Com uma brechinha do olho, fiquei observando os velhinhos ao lado das cadeiras. Então, eis que o terrível aconteceu. Uma senhora, que estava sentada atrás de nós, revelou meu plano quase perfeito.
- Olha pra isso, Fulana. Que coisa feia desses dois meninos! Fingindo que estão dormindo pra não dar o lugar pros mais velhos.
Meu irmão e eu não nos aguentamos. Explodimos numa gargalhada ainda mais mau-caráter do que nosso ato. Saímos corridos do ônibus, quase a bengaladas.
Hoje eu sei: nada mais justo.