terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O novo amanhecer

Por João Paulo da Silva

Eu amanheceria com os primeiros raios do sol afagando meu rosto. Chegaria bem cedo à padaria, pegaria os pães ainda quentinhos e prepararia com eles um belo café da manhã. Levaria as frutas, as torradas, a manteiga, o suco de laranja e a geléia de morango até a cama para minha mulher. Sim, eu teria uma mulher para amar. E teria um filho também. Minha mulher teria todas as características de uma rosa, exceto os espinhos. Meu filho pareceria comigo, mas o importante é que teria saúde. Após o café, ela me agradeceria com um beijo sabor laranja e me lançaria um “bom-dia” lambuzado de geléia de morango, amor e carinho. Eu levantaria da cama feliz da vida e entraria no banheiro para tomar um bom banho, cantando aquela velha canção que anos antes havia selado nosso amor.
“Quando a gente conversa, contando casos, besteiras. Tanta coisa em comum, deixando escapar segredos”.

Ela entraria no banho também, me chamaria de bobo e nós faríamos amor banhados pela água fria do chuveiro e pelos primeiros raios mornos da manhã.
Antes de sair para trabalhar, eu passaria no quarto do meu filho e diria:
- Vamos lá, garotão! Tá na hora de ir pro colégio.
Ele relutaria por alguns instantes, mas logo se levantaria animado com a idéia de que iria ao colégio aprender coisas novas. Aos oito anos ele já leria Shakespeare, Drummond e García Lorca. Também veria Chaplin e Woody Allen. Eu teria tempo suficiente para levá-lo ao colégio, pois os homens não seriam mais escravos do relógio. Trabalhariam de chinelos, bermuda e camiseta. Nada de ternos e gravatas. Eu trabalharia cantando a vida em verso e prosa, recriando o mundo a cada milésimo de segundo, exatamente como agora.

Quando chegássemos ao colégio, eu seguraria meu filho pelos ombros e, olhando bem em seus olhos, diria:
- Cuide-se, garoto. Seja um bom menino, do contrário não vai ter sorvete de sobremesa. Papai ama você. Tchau.
Depois de me despedir do infante com um beijo na testa, eu partiria para o trabalho. Iria a pé mesmo. É que daria gosto caminhar pelas ruas. Não haveria assaltos, pois não seria necessário roubar para comer. Não haveria favelas, e sim lares. Não encontraríamos mendigos nas ruas, eles não estariam nelas. Estariam amando suas mulheres, educando filhos, construindo vidas. Seriam homens. Não haveria crianças nos sinais, elas estariam nas escolas. Não haveria classes, nem partidos, nem guerras, nem fome, nem miséria. A exploração e a desigualdade não existiriam, a propriedade seria abolida. Teríamos horizontes, não fronteiras. As pessoas não cuspiriam insultos; declamariam flores. Não existiria tempo para as lágrimas da dor. Não marcaríamos o tempo da solidão, ele não existiria.

Eu chegaria ao trabalho cumprimentando calorosamente meus companheiros. Seriam companheiros de sonhos, companheiros de vida. Seriam seres humanos. Trabalharíamos por prazer, o suficiente para sermos felizes. Construiríamos a vida da mesma forma que um poeta constrói amores. Depois do trabalho, eu iria correndo para casa. Não por estar atrasado para algum compromisso, e sim porque minha família estaria me esperando para o almoço. Da esquina, eu sentiria o cheiro bom do feijão. Entraria sorridente em casa e me sentaria rapidamente à mesa. Teríamos uma mesa farta, assim como todas as outras pessoas do mundo. Após nos entupirmos de sobremesa (sorvete, lembra?), iríamos os três tirar um cochilo. Sabe como é, né? É bom dormir de barriga cheia.

Acordaríamos nos limites que separam a preguiça da disposição, mas satisfeitos. Meu filho, sabido como todas as crianças, já teria adiantado os exercícios do colégio e estaria doidinho para ir jogar uma bolinha na rua da frente. Não sem antes ler um pouco de Neruda, é claro. Sairíamos para o campinho da rua da frente dispostos a marcar muitos gols, e marcaríamos. Sabe como é, né? Seríamos bons de bola. Jogaríamos até que não pudéssemos mais ver os próprios pés de tanta sujeira que haveria neles. Quando voltássemos para casa, suados como uns porquinhos, minha mulher nos empurraria à força para o banheiro, dizendo ser nossa imundice motivo incontestável para a imposição.

Já de banho tomado e cheirosos, partiríamos juntos para um programa de fim de tarde. Caminharíamos animados pela orla. A brevidade da vida não seria problema, a beleza simples de seus momentos faria a humanidade feliz o suficiente para abrir um sorriso. Ficaríamos hipnotizados com o ir e vir das ondas, a brisa do mar beijaria nossos rostos, o pôr do sol celebraria o fim da solidão humana. Perceberíamos a harmonia do mundo todas as vezes que abríssemos a janela do quarto, que pegássemos um ônibus, que déssemos um bom-dia. Ao lado de minha mulher e de meu filho, eu perceberia com clareza real a emancipação da condição do homem enquanto bicho amante e ser vivo pensador. As vidas se cruzariam constantemente. Todo homem reconheceria a si mesmo em outro homem. Nenhum homem seria estranho a outro homem. Um chinês cumprimentaria um brasileiro, que cumprimentaria um russo, que por sua vez cumprimentaria um angolano. Seria sempre o mesmo cumprimento: “Olá, camarada!”. Estaríamos livres dos grilhões do nosso próprio egoísmo e a humanidade seria uma mulher de cabelos vermelhos com flores nas mãos.

Voltaríamos para casa mais leves do que as nuvens, com um carnaval nos corações e já pensando como celebraríamos a vida amanhã. Cinemas, teatros, bibliotecas... À mesa do jantar, comemoraríamos o nascimento de um novo amanhecer. O amor e a liberdade seriam sempre os pratos principais do cardápio. Beberíamos, comeríamos, dançaríamos, sorriríamos como nunca em nossas vidas. Por baixo da mesa, eu esfregaria meu pé no de minha mulher, num convite ousado para mais tarde. Após o jantar, eu passaria no quarto de meu filho para verificar-lhe o sono. Dormiria tão tranqüilamente que eu poderia até ouvir os ruídos de seu coração e de seus sonhos. Beijaria sua testa e sairia na ponta dos pés. Feito isso, partiria correndo para meu quarto. Iria me empenhar de corpo e alma – sobretudo corpo! – na mais prazerosa atividade física da natureza humana, através da qual estendemos nossa existência.

E no dia seguinte, a vida se repetiria.
Bem é verdade que o mundo pareceria perfeito demais, mas eu nunca ouvi falar de alguém que tivesse tido um sonho imperfeito.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A caneta de cinco cores

Por João Paulo da Silva

Alfredo lia o jornal quando o filho de seis anos se aproximou com uma caneta na mão e disse:
- Pai, preciso de outra caneta. Esta não funciona mais.
- Amanhã eu compro, filho. – respondeu sem tirar os olhos do jornal.
- Mas tem que ser igual a do Maurício.
- Por quê?
- Porque ela é grande, bonita e tem cinco cores.
- Cinco cores?! – assustou-se.
- Isso mesmo, pai. Cinco cores.
Alfredo fechou o jornal, coçou a barba, olhou tristemente para o menino e falou:
- Desculpe, filho. Deve ser muito cara. Eu não posso comprar.
- Por quê?
- Porque nós somos pobres.
- Mas só nós?
- Não, filho. Um montão de gente também é.
- E é ruim ser pobre?
- É, filho.
- Por que é que o pai do Maurício pode comprar a caneta?
- Ele deve ser rico.
- Existe muita gente rica?
- Acho que sim, filho.
- Mais do que pobres?
- Com certeza que não.
- E é bom ser rico?
- É, filho.
O garoto calou-se por um instante, parecia estar submerso nos próprios pensamentos. Olhou intrigado para o pai e perguntou:
- Por que é que as coisas são assim?
- Assim, como?
- Uns podem ter. Outros, não. Uns são ricos e outros são pobres. Por quê?
Alfredo pensou, coçou novamente a barba e respondeu:
- São as regras, meu filho.
- Regras? – estranhou o garoto.
- Sim. O mundo tem suas regras. São elas que dizem o que a gente pode ou não fazer.
- Também são elas que dizem quem é pobre e quem é rico? – quis saber o menino.
Alfredo balançou a cabeça numa afirmativa.
- Não gosto das regras, pai.
- Eu também não, filho. Eu também não.
Fez-se um curto silêncio e, então, o menino disse:
- Sabe o que é que eu acho, pai?
- O quê?
- Que o bom mesmo seria que todo mundo pudesse ter canetas de cinco cores.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

2012

Por João Paulo da Silva

O mundo já tem data para acabar. Pois é. De novo. Agora, nosso encontro “definitivo” com o apocalipse está marcado para o dia 21 de dezembro de 2012. Entretanto, agendar o fim do mundo nunca foi o forte da raça humana. Entre loucuras religiosas e mirabolantes teses cientificas, inúmeras profecias já foram traçadas. Nenhuma delas, porém, vingou. Só que desta vez parece que a coisa é um pouco diferente.

O mais novo Armageddon está amparado pelo admirável calendário da civilização maia. E de onde se tirou mais esta ideia do fim? Levando em consideração que a contagem dos dias e das noites no calendário maia se encerra em 21 de dezembro de 2012, os trombeteiros do apocalipse concluíram que, depois desta data, não haverá mais nada para contar. Simples assim. E qual é o argumento incontornável para esta tese? Por serem profundos conhecedores de astronomia, os maias não poderiam estar errados ao encerrarem suas contas no referido ano. Os maias são os maias, pô.

A paranoia do fim do mundo já nos rendeu muitas decepções, estão aí os lunáticos de seitas apocalípticas que não me deixam mentir. Entretanto, ao longo do tempo, a catástrofe final rendeu algo um pouco mais valioso para um punhado de gente: dólares, muitos dólares. As tragédias do apocalipse geraram e ainda geram, a cada novo filme, uma fortuna para Hollywood. Mas não é só isso.

Nos EUA, já existem lojas vendendo bugigangas para o fim dos tempos. Tem de tudo. Desde pastilhas purificadoras de água até potes de magnésio, que servem para fazer fogo. Quer dizer, tudo bem que o mundo acabe. Mas até lá a gente vai ganhando uma graninha. É como aquela história do capitalista condenado à forca. Antes da execução, o desgraçado ainda vendeu para seus carrascos a corda que o enforcaria.

Contudo, há um aspecto que me deixou boquiaberto, tamanha a insanidade do fato. No sul da Espanha, estão construindo habitações de cimento, a uns 2000 metros acima do nível do mar, capazes de suportar o sacolejo final do planeta. E o pior: apenas 5000 pessoas serão levadas para estes refúgios. E eu nem preciso dizer a que classe social esses privilegiados pertencem.

Bom, só que eu tenho um plano. Quando o sol raiar normalmente no dia 22 de dezembro de 2012 e a burguesia que se trancafiou nos esconderijos do sul da Espanha notar que o mundo não acabou, nós, pobres, aqui do lado de fora, não abriremos as portas para os parasitas. Os deixaremos lá, trancados. E assim, finalmente, nos veremos livres de um verdadeiro problema.